terça-feira, 5 de março de 2013


‎"'É preciso reagir', dizia Lucie. 
A ideia vai-a roendo, tenho a certeza, mas com lentidão, com paciência: ela reage, mas não é capaz de se consolar, nem de se abandonar ao seu mal. Pensa no caso um bocadinho, um bocadinho pequenino, tira partido dele. Sobretudo quando está acompanhada, porque os outros a consolam, e também porque faz bem falar no assunto com um tom presumido, com ar de quem dá conselhos. Quando anda sozinho pelos quartos, ouço-a cantarolar, para afugentar os pensamentos. Mas passa o dia cabisbaixa, cansa-se depressa e amua:
'É aqui', diz ela tocando a garganta, 'trago aqui um nó!'
Há avareza na sua maneira de sofrer. Nos seus prazeres deve haver também. Admira-me que esta mulher não tenha vontade, às vezes, de se libertar daquela dor monótona, daquele resmonear que a volta a moer, assim que ela deixa de cantar; que não deseje sofrer por uma vez, afogar-se no desespero. Mas, mesmo que quisesse, não poderia: aquele nó veda-lhe a saída do sofrimento!"

Jean-Paul Sartre in A Náusea

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